Noite de Natal

Sara B. Carvalho ilustra o artigo Noite de Natal

A noite estava tão fria quanto ela. A neve que caía lá fora parecia mais agradável do que o gelo que Mariana sentia no coração. 

Queria riscar aquela época do calendário. O seu companheiro de saídas, que odiava aquela festividade tanto quanto ela, estava doente e Mariana não quis viajar sozinha.

O pai morrera-lhe há três anos na véspera de Natal e a mãe passados dois dias. Uns cinco anos antes, o divórcio chegara também na mesma quadra. Portanto, Mariana não tinha nenhuma memória agradável relacionada com o Natal, pelo contrário.

Desde então, planeava com Ricardo, um amigo de longa data, excluído há muito pela própria família devido à sua escolha sexual, umas férias em finais de dezembro, de preferência para um país que não fosse cristão.

A casa, em Chaves, era confortável, mas o que sentia dentro de si suplantava qualquer sensação externa de calor. Decidiu agasalhar-se e espairecer. A televisão debitava o telejornal com grande parte das notícias relacionadas com o Natal. Já não aguentava mais aquele aperto e angústia dentro do peito.

Vestiu o casaco mais quente, calçou as botas para a neve e saiu. Não sabia bem para onde se dirigir, mas precisava respirar o ar frio da noite e sentir-se em conformidade com o inverno. As ruas estavam desertas, as luzes das casas acesas, as iluminações coloridas, a piscar, enfeitavam as árvores da principal avenida. Dirigiu-se ao rio. Aquele era um ano atípico. Tudo estava coberto de um manto branco.

O rio parecia um espelho. Mariana encostou-se à ponte e ficou a olhar para baixo. Via o seu reflexo distorcido. No fundo, era como se sentia. Deformada da sociedade. Não se encaixava naqueles moldes, naquela necessidade de consumo. Vivia perfeitamente bem, sozinha, o ano inteiro. Naquela altura, sentia que existia uma hipocrisia crescente disfarçada de amor, prendas, muita comida e bebida. Mas quem era ela para julgar? Também já vivera aquela festividade assim. Talvez, se não lhe tivesse acontecido o que aconteceu, estaria àquela hora sentada à mesa a comer e a rir-se, dentro de uma camisola de lã quente com motivos de azevinho, verdes e vermelhos. Talvez o marido se vestisse de Pai Natal e trouxesse prendas para todos. Talvez as crianças estivessem sentadas no chão, lambuzadas de chocolate, à espera de receber a enxurrada de presentes. Mas a realidade é que não podia ser mãe e o marido escolhera aquela data para a deixar, dizendo-lhe que queria ter filhos. Ainda sentia o punhal enterrado.

Enquanto viajava naquele trenó de pensamentos tristes, viu um movimento na margem, juntamente com aquilo que lhe pareceu ser um gemido. Olhou melhor, baixou-se, levantou o gorro da orelha e voltou a ouvir um bramido semelhante ao choro de um bebé. Apressou-se para a margem, com cuidado para não escorregar. Foi descendo até encontrar o pequeno corpo enroscado, a tremer de frio. Um pequeno gato. Miava como quem pede ajuda. Aproximou-se, falando-lhe suavemente para não o assustar ainda mais. Quando conseguiu ganhar confiança, agarrou-o com cuidado e colocou-o dentro do casaco. Ele não ofereceu resistência. Não havia como recusar calor numa noite fria como aquela. 

Mariana foi rapidamente para casa, embrulhou-o num cobertor e sentou-se junto à lareira com o bichano embrulhado, no colo. Ainda tremia. As labaredas pareceram-lhe mais vívidas, belas e o ambiente acolhedor. Existia agora um brilho mágico no ar. 

Fez-lhe festas, sussurrou-lhe carinho e assegurou-lhe um lar. Preparou-lhe comida e cama, mas ele quis ficar na dela. Chegava de estar só. Aqueceram os corpos e o coração respirou fundo. O amor instalou-se e o sono veio sorrateiro. Dormiram juntos nessa noite, e nas seguintes.

Desde então, nunca mais se separaram e o Natal passou a ter um sabor um bocadinho mais doce.

Boas festas, sempre com amor 💖

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