
Passei grande parte da infância com a minha avó materna, Maria do Céu.
Adorava ficar com ela à janela a observar as estrelas e a cantarolar lengalengas, a vê-la pintar as unhas, a passar pó de arroz e perfume. Admirava-lhe os vestidos floridos que tinha no guarda-fatos e sempre que podia experimentava os sapatos de salto alto, coisa que ela imediatamente proibia.
Mas o que eu gostava mais era de dormir com ela na enorme cama de casal e ouvir as histórias que ela me contava antes de dormir. Ainda me lembro de se queixar que, durante a noite, ia sempre para cima dela e que lhe dava pontapés. Acabou por colocar uns travesseiros a meio, qual trincheira de paz.
Alugava um dos quartos a um homem. Não tinha receio. Dizia preferir homens a mulheres porque as que já lá tinham estado eram porcas. Deixavam pensos e cuecas sujos debaixo da cama!
Admirava a sua independência e irreverência. Dizia na escola, com orgulho, que a minha avó usava calças de ganga e ténis.
Estava sempre bem arranjada, com as suas jóias, cabelo cortado e pintado (por ela), batom e faces rosadas. Não passava despercebida a cavalheiros, nem a outras mulheres. Sempre foi alvo de inveja e recordo-me das guerras com a vizinha de cima que a provocava com barulho. A avó Céu batia com o cabo da vassoura no teto, já cicatrizado das retaliações.
No entanto, o que mais me espantava nela era dizer que não tinha medo de nada. Eu só de pensar em atravessar o longo corredor da casa dela tremia.
Hoje, entendo-a.
Quem passa por vários infernos sozinha e consegue sair viva, aprende a se tornar forte.
Sabe do que é capaz e deixa de ter medo do quer que seja. Já nada atormenta.
O meu último livro – Sete O Princípio, é uma homenagem a ela e, no fundo, a todas as mulheres que são obrigadas a arranjar forças que nem sabiam ter.
Na fotografia, está em Angola, à mesa, com a minha mãe e as minhas tias.

